Quando a piscina vira ciência, ofício e um grande propósito
Durante muito tempo, cuidar de piscinas foi visto como um trabalho secundário, quase automático, associado à força física e, quase sempre, aos homens. No imaginário popular, bastaria “jogar cloro”, passar a peneira e pronto. Mas essa visão simplificada não resiste ao avanço técnico da profissão nem à presença crescente de mulheres que enxergam a piscina como um sistema complexo, que envolve química, hidráulica, elétrica e, sobretudo, responsabilidade com a saúde.
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Foto: Graciele Oliveira / Divulgação
Na Grande Florianópolis, em Santa Catarina, esse novo olhar tem nome e história. Graciele Oliveira, mais conhecida como Gra, da Cambirela, é fundadora da Cambirela Piscinas e atua em residências e condomínios da região. Sua trajetória no setor não foi planejada nem imediata — foi construída a partir da necessidade, da observação atenta e de uma decisão consciente de aprender profundamente um ofício ainda cercado de estereótipos.
Da gestão à linha de frente
A entrada no mercado aconteceu em 2016, quando seu esposo iniciou os trabalhos como piscineiro. Na época, Graciele atuava na área comercial e de marketing de uma rede de escolas de idiomas. Coube a ela, naquele primeiro momento, cuidar da prospecção de clientes e da organização do negócio. Mesmo sem executar os serviços diretamente, passou a estudar o mercado, entender os processos e acompanhar de perto a rotina.

Foto: Divulgação
Entre 2016 e 2019, a empresa cresceu, mas também enfrentou os desafios comuns a quem empreende no Brasil: instabilidade, necessidade de múltiplas fontes de renda e adaptação constante. A mudança decisiva veio em 2019, quando seu esposo recebeu o diagnóstico de uma doença degenerativa grave na coluna. A partir dali, não havia mais alternativa: Graciele precisou assumir também a execução técnica do trabalho.
Esse período marcou uma virada profunda. O estudo se intensificou, os cursos se multiplicaram e o conhecimento passou a ser a base do serviço prestado. Foi quando a Cambirela Piscinas começou a se consolidar como marca e proposta. A piscina deixou de ser apenas um espaço de lazer para ser tratada como aquilo que realmente é: um ambiente que exige precisão, análise e cuidado contínuo.
Água com boa aparência não é garantia de água saudável
Um dos pontos que Graciele mais enfatiza é o equívoco comum de associar água bonita à água saudável. Como ela resume de forma direta: “piscina azul não é piscina saudável”.

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A aparência, explica, pode mascarar problemas sérios. Parâmetros químicos desregulados, filtração ineficiente e processos mal executados comprometem tanto a saúde dos usuários quanto a durabilidade da própria piscina.
O tratamento adequado envolve muito mais do que a aplicação de produtos. Exige compreensão do sistema de filtração, do processo de oxidaçãoe sanitização da água, além do equilíbrio químico capaz de evitar desconfortos, manchas, corrosões e deterioração de materiais. Quando surgem problemas, é fundamental identificar a causa — não apenas corrigir o efeito.
No dia a dia, Gra encontra com frequência piscinas visualmente impecáveis, mas tecnicamente comprometidas. Erros de instalação hidráulica e elétrica, dimensionamentos incorretos e ralos de fundo mal posicionados criam zonas de baixa circulação, especialmente em piscinas maiores. No campo químico, são comuns casos de piscinas de fibra manchadas pelo uso inadequado de produtos e piscinas de alvenaria com rejuntes deteriorados por desequilíbrios na dureza cálcica.

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Técnica, rotina e resistência silenciosa
Além da técnica, existe o fator humano — e é aí que o preconceito ainda se manifesta. Mesmo com o crescimento da presença feminina no setor, não é raro que a dúvida surja antes mesmo do serviço começar. A pergunta aparentemente inocente carrega um julgamento implícito. Como ela mesma observa, “a pergunta ‘mas você consegue?’ já é, por si só, um preconceito”. A resposta vem com conhecimento, postura profissional e constância.
A rotina de trabalho varia conforme o tipo de cliente e o uso da piscina. Graciele atende residências e condomínios, e cada ambiente impõe desafios distintos. Fatores externos, como clima, volume de uso e frequência de manutenção, influenciam diretamente os processos. Há protocolos estabelecidos, mas nenhuma fórmula rígida. A análise da água é sempre o ponto de partida, e a partir dela se definem as ações necessárias.
Outro aspecto central do seu trabalho é a educação do cliente. A manutenção não se encerra na visita técnica. Como Gra destaca, “a comunicação é muito importante, eu sempre envio comunicados gerais de instruções de uso, fico atenta em estoque de produtos, e tenho uma relação bem achegada a cada cliente, os condomínios tenho grupos para informações e envio de fotos do processo.” Enviar orientações, acompanhar estoques de produtos, manter comunicação constante e registrar processos faz parte da rotina.
Em condomínios, esses grupos ajudam a criar transparência e corresponsabilidade. O objetivo é claro: garantir que as orientações sejam seguidas para preservar a qualidade da água entre uma visita e outra.
Profissão, negócio e futuro
Empreender nesse segmento também exigiu desenvolver habilidades além da técnica. Estruturar um negócio, definir objetivos e construir uma marca reconhecida foi um processo gradual, sustentado por constância e clareza de propósito. As redes sociais tiveram papel importante nesse caminho, funcionando como vitrine profissional e ponto de referência para clientes. Mais do que viralizar, elas ajudam a fixar a marca e associá-la à qualidade do serviço prestado.
O futuro da profissão, segundo Graciele, é inevitavelmente tecnológico. Automação, controle remoto de parâmetros, soluções sustentáveis e maior eficiência energética já fazem parte da realidade do setor. Isso eleva o nível de exigência e reforça a necessidade de capacitação contínua para quem deseja se destacar.
Para mulheres que observam a área com curiosidade, mas ainda sentem insegurança, o conselho é simples e direto: “não tenha medo. Nós mulheres somos capazes do que queremos, basta admitir que conseguimos!”.
E acrescenta: “o caminho pode exigir mais esforço, mais estudo e enfrentar resistências, mas a dedicação aliada ao conhecimento técnico segue sendo a chave para transformar um ofício subestimado em uma carreira sólida, digna e em constante evolução.”