Revista Pool-life | Edição 65


A água é um elemento essencial à vida. Entretanto, em número anterior desta revista, relatamos um episódio ocorrido em Walkerton, no Canadá, em que praticamente metade da população local ficou doente, e alguns até morreram, em consequência de contaminação por uma bactéria transmitida pela água, porque a água não tinha sido tratada adequadamente1 
 
Neste artigo, queremos alertar sobre outro problema que pode ser causado pela água e uma das causas frequentes de morte acidental, principalmente entre as crianças, ou seja, o afogamento. O nosso objetivo é mostrar que medidas simples de prevenção podem tornar a atividade aquática, uma das mais apreciadas pelas crianças, em uma atividade que pode ser realizada com prazer e segurança. 
 
No quadro abaixo, a estatística sobre o afogamento (1998) nos mostra a dimensão do problema. 
 
 
 
 
Embora as praias sejam um grande atrativo para turistas, o local onde ocorre o maior número de salvamentos e de afogamentos com morte não é na orla e, sim, em águas doces. 
 
Definição: Afogamento é a asfixia causada por aspiração de líquido de qualquer natureza, que inunda o aparelho respiratório, impedindo a troca de oxigênio e gás carbônico, resultando em diminuição ou abolição da passagem do oxigênio para a circulação e do gás carbônico para o meio externo. Se o quadro de afogamento não for interrompido, a redução de oxigênio levará à parada respiratória, que em segundos ou poucos minutos provocará a parada cardíaca. O termo aspiração refere-se à entrada de líquido nas vias aéreas (traqueia, brônquios ou pulmões), e não deve ser confundido com “engolir água”. 
 
O primeiro passo para entender o processo de afogamento é diferenciar entre um caso de resgate e de afogamento. 
 
Resgate: Vítima retirada viva da água, que não apresenta tosse ou espuma na boca e/ ou no nariz. Quando consciente, após a avaliação de um socorrista (pessoa treinada em primeiros socorros), pode ser liberada no local do acidente sem necessitar de atendimento médico. 
 
Afogamento: pessoa retirada da água, com sinais evidentes de aspiração de líquido: tosse, ou espuma na boca e/ ou no nariz. Deve ter sua gravidade avaliada por um socorrista no local do acidente, receber tratamento adequado de suporte básico de vida (manobras que temporariamente garantem a oxigenação e circulação de sangue nos órgãos vitais, como o cérebro) pelo socorrista, que deverá acionar se necessário, uma equipe médica (suporte avançado de vida). 
 
Prevenção, Reconhecimento e Alarme em Afogamento: Essas medidas podem evitar mais de 85% dos casos de afogamento. 
 
Prevenção: São ações baseadas em advertências e avisos a banhistas no sentido de evitar ou ter cuidado com os perigos relacionados ao lazer, trabalho, ou esportes praticados na água. Embora o ato de prevenir possa aparentemente não parecer à população como “heroico”, são eles os alicerces da efetiva redução de mortalidade destes casos (Tabela 1). 
 
Reconhecimento: Identificar um caso de afogamento antes ou durante a sua ocorrência possibilita tomar atitudes mais precocemente. 
 
Preste mais atenção nas pessoas ao seu redor na praia ou piscina e reconheça o banhista com potencial para o afogamento. 
 
TABELA 1 – MEDIDAS DE PREVENÇÃO EM AFOGAMENTOS 
PRAIAS E PISCINAS SÃO LOCAIS DE LAZER. EVITE AFOGAMENTOS! 
 
– Aprenda a nadar a partir dos 2 anos.
– Mantenha atenção constante nas crianças.
– Nunca nade sozinho.
– Mergulhe somente em águas fundas.
– Prefira sempre nadar em águas rasas.
– Não superestime sua capacidade de nadar, tenha cuidado! 
 
PRAIAS 
 
1 Nade sempre perto de um guarda-vidas. 
2 Pergunte ao guarda-vidas o melhor local para o banho. 
3 Não superestime sua capacidade de nadar; 46,6% dos afogados acham que sabem nadar. 
4 Tenha sempre atenção com as crianças. 
5 Nade longe de pedras, estacas ou piers. 
6 Evite ingerir bebidas alcoólicas e alimentos pesados, antes do banho de mar. 
7 Crianças perdidas: leve-as ao posto de guarda-vidas. 
8 Mais de 80% dos afogamentos ocorrem em valas (figuras 1 e 2).
 – A vala é o local de maior correnteza, que aparenta uma falsa calmaria e leva para o alto-mar. 
– Se você entrar em uma vala, nade transversalmente a ela até conseguir escapar ou peça socorro imediatamente.
9 Nunca tente salvar alguém em apuros se não tiver confiança em fazê-lo. 
Muitas pessoas morrem dessa forma. 
10 Ao pescar em pedras, observe antes se a onda pode alcançá-lo. 
11 Antes de mergulhar no mar, certifique-se da profundidade. 
12 Afaste-se de animais marinhos como a água-viva. 
13 Tome conhecimento e obedeça às sinalizações de perigo na praia. 
 
PISCINAS 
 
1 Mais de 65% das mortes por afogamento ocorrem em água doce, mesmo em áreas quentes da costa. 
2 Crianças devem sempre estar sob a supervisão de um adulto. 89% das crianças não têm supervisão durante o banho de piscina. 
3 Leve sempre sua criança consigo caso necessite 
afastar-se da piscina. 
4 Isole a piscina colocando grades com altura de 1,50 me 12 cm entre as verticais. Elas reduzem o afogamento em 50 a 70%. 
5 Boia de braço não é sinal de segurança. Ela pode se esvaziar. 
CUIDADO! 
6 Evite brinquedos próximos da piscina; isso atrai as crianças. 
7 Desligue o filtro quando usar a piscina. 
8 Use sempre telefone sem fio na área da piscina. 
9 Não pratique hiperventilação para aumentar o fôlego, sem supervisão confiável. 
10 Cuidado ao mergulhar em local raso, você pode bater a cabeça 
no fundo, ou sofrer lesão do pescoço (coloque aviso). 
11 84% dos afogamentos ocorrem por distração do 
adulto (hora do almoço ou após). 
12 Mais de 40% dos proprietários de piscinas não sabem prestar os primeiros socorros. CUIDADO!
13 Aprenda as técnicas de reanimação cardiorrespiratória. 
 
Fora da água: Pessoas muito idosas, obesas ou com aparência cansada, alcoolizadas, utilizando objetos flutuantes, turistas, imigrantes ou estranhas ao ambiente, cor da pele muito branca, tipo de bronzeamento ou tonalidade de pele marcada por camiseta. Modo inadequado de se vestir para a praia ou piscina ou com o equipamento inadequado. Comportamento típico de um ‘estranho no ninho’ como: brincadeiras de rolar na areia; escolha do local para ficar na praia (perto de uma corrente de retorno); não observar as sinalizações de perigo; o sotaque; olhar o mar com espanto; chegar à praia em grupos grandes.
 
Dentro da água: Pessoas que entram na água de forma estranha ou eufórica com brincadeiras espalhafatosas; que se banham na corrente de retorno; que nadam sem estilo; boiam na água; olham para a areia constantemente; perdem sua boia e se desesperam; brincam na água ou na corrente de retorno de costas para a onda; nadam a favor da corrente lateral ou de retorno (perigo iminente); têm um comportamento assustado quando se deparam com uma onda maior; tampam o nariz quando afundam a cabeça na água. 
 
Sinais de uma vítima se afogando: Expressão facial assustada ou desesperada; perdendo o pé na água, afunda e volta a flutuar em pé; onda encobre o rosto da vítima, que olha para a areia; nada, mas não sai do lugar; nada contra a força da correnteza; nada em pé sem bater as pernas; os cabelos na face. 
 
Alarme (solicitando Socorro): Após reconhecer a necessidade de socorro, chame por ajuda ou peça a alguém para fazê-lo (em São Paulo, ligue 193 – Bombeiros), ou avise alguém antes de tentar qualquer tipo de socorro. Jamais tente socorrer a vítima se você não tiver treinamento prévio ou se estiver em dúvida. Socorristas podem morrer junto com a vítima se estiverem despreparados. 
 
Referências 
1. J. Gruber, R. W. C. Li e E. M. S. Higa, Revista da Piscina, nº 63/64, p.18 e19 (2004).
2. D. Szpilman e PJ Orlowski,
 
Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), nº 2, p. 390-405 (2001).
 
Você pode alvar muitas vidas sem entrar na água, apenas usando o bom senso para reconhecer vítimas potenciais. Oriente-as sempre a se banharem próximo a um posto de salvamento e a obter informações com o guarda-vidas, de como evitar o afogamento 
 
(*) Os autores 
 
Dr. David Szpilman – Médico do Grupo de Socorro de Emergência – GSE – CBMERJ; Chefe do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Municipal Miguel Couto, RJ; Membro do Conselho Médico da Federação Internacional de Salvamento Aquático-ILS; sócio-fundador, Ex-presidente e atual diretor médico da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático – SOBRASA; Membro da Câmara Técnica de Medicina Desportiva do Conselho Regional de Medicina, RJ; Membro do Comitê Nacional de Ressuscitação; Membro da Força Tarefa para o ILCOR2005. 
 
Prof. Osni Guaiano – Professor de Educação Física, diretor administrativo da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático – SOBRASA.
 
Profa. Dra. Elisa Mieko Suemitsu Higa – Professor Adjunto da disciplina de Medicina de Urgência e pesquisadora associada da disciplina de Nefrologia da Escola Paulista de Medicina/ UNIFESP. 
 

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