Revista Pool-life | 20/11/2018


DAVID HOCKNEY: A PISCINA ENQUANTO OBRA DE ARTE 

 

O ARTISTA BRITÂNICO VIAJOU PARA A CALIFÓRNIA EM 1964 E SE SURPREENDEU, ENQUANTO VOAVA, COM AS PISCINAS DAS CASAS. RESULTADO: INCORPOROU O TEMA AO TRABALHO E, EM TELAS COMO A BIGGER SPLASH, TRANSFORMOU-O EM ÍCONE DA SOCIEDADE MODERNA.

 
 
A piscina e um estado de espírito. E o Estado da Califórnia, sem trocadilhos, vive como nenhuma parte do mundo esse estado leve e solto de espírito. A final, e provável que a região mais populosa dos Estados Unidos tenha mais piscinas por quilômetro quadrado do que qualquer outro lugar. Nessa terra banhada por um sol com jeito mediterrâneo, embalada pela brisa do oceano Pacifico, com ate 97% dos dias do mês de julho ensolarados, a piscina – como o cinema – e uma instituição. Alias, o cinema, com as mansões dos artistas e os musicais aquáticos de Esther Williams, contribuiu para que, na Califórnia, a piscina fosse bem mais que um paralelogramo cheio de água e se transformasse em pane fundamental do sonho americano.
 
O britânico David Hockney, um dos mais celebrados artistas plásticos contemporâneos, tinha 26 anos quando conheceu o Estado norte-americano. Ele nasceu em Bradford, cidade do condado de Yorkshire conhecida pela indústria têxtil, pelas lãs e veludos que produz, e estudou no Royal College of Art, na chuvosa e nevoenta Londres. Ao entrarem contato com a Califórnia, o choque foi inevitável. Por lá, sob o sol de todos os dias, quem pensava em lãs e veludos? Era outro mundo, constatou, dando razão ao escritor George Bernard Shaw, quando disse que a Inglaterra e os Estados Unidos eram dois países separados por uma língua com um. Era, efetivamente, outro mundo e Hockney fixou-o em trabalhos como Plastic Tree Plus City Halle Califonia Art Collector, seus primeiros quadros californianos.
 
Eu tinha a intuição de que a Califórnia era um lugar de que realmente gostaria e em 1964 fui para Los Angeles – onde não conhecia uma alma –, decidido a trabalhar naquela parte do mundo. Enquanto voava sobre San Bernardino, olhava para baixo e via as piscinas das casas, estava mais impressionado do que nunca ao chegar em qualquer outra cidade. Foi na Califórnia que fiz minhas primeiras pinturas maduras e comecei a tentar pintar um lugar como realmente era, ou parecia que era. 
 
Plastic Tree Plus City Hall mostrava uma palmeira em primeiro piano e, em menores dimensões, destacada no lado direito, a sede da Prefeitura de Los Angeles. Era um quadro sóbrio, de evidente teor pop, mas um pouco distante das composições que caracterizavam o trabalho de Hockney. Já California Alt Collector mostrava um personagem feminino sentado num sofá, cercado por obras de arte. e, ao fundo, uma piscina com palmeiras. Sem se dar conta do que viria. Hockney se rendia ao culto californiano a piscina e abria um ciclo que marcaria sua obra, a ponto de ser reconhecido, a grosso modo. como o anista que pinta piscinas – e banhistas. Tudo no quadro, pintado em fevereiro de 1964, era inventado, lembrou certa vez. Menos a piscina, reproduzida de um "anuncio de piscinas publicado na edição de domingo do Los Angeles Times".
 
 
 
 

California Art Collector 1964 - Foto/Reprodução


 

 
Hoje, falar do ciclo de banhistas e piscinas – ou vice-versa – de David Hockney soa tao familiar quanto citar os girassóis de Van Gogh ou as mulatas de Di Cavalcanti. Os banhistas e as piscinas ficaram como uma das mare as registradas de um sofisticado ciclo que exalta o sentido hedonista da vida – certa vez, como lema para sua existência, o artista escreveu: Love Life. A piscina, dizem os quadros do artista, e mesmo um estado de espírito, um cenário para que se manifeste em toda a força a alegria de viver e, paradoxalmente, vez por outra, também revele a outra face da moeda, la se disse que uma piscina deserta e uma imagem de terrível solidão. Basta olhar quadros como Pool and Steps, Le Nid du Due, de 1971, no qual o principal personagem e a piscina, para avaliar o que pode significar uma piscina deserta. 
 
 
 

Pool and Steps, Le Nid du Duc 1971 - Foto/Reprodução

 

 

Ao mesmo tempo em que retratava um dos aspectos da maneira descontraída de viver da Costa Oeste norte-americana, Hockney se preocupava, como qualquer artesão que quer aprofundar seu instrumental de trabalho, com problemas formais. Exemplo: corno representar a água? Hockney não é um artista realista e, portanto, não haveria sentido em tentar representá-la como e, com suas cores e reflexos. “E um interessante problema formal, porque a água pode ser qualquer coisa, pode ter qualquer cor, é móvel e não tem uma descrição visual. Para fazermos quadros, partia de desenhos e. mais tarde, ate de fotografias.” Distante de qualquer realismo. Hockney estilizou o caráter impreciso da água não para retratar, mas para sugerir. Ele disse:
 
 

Picture of a Hollywood Swimming Pool 1964 - Foto/Reprodução

 
 

 

Two Boys in a Pool, Hollywood 1965 - Foto/Reprodução

 


 

 
—Na piscina, a água muda de aparência mais do que em qualquer outro lugar. A cor de um rio esta ligada ao céu que renete e o mar sempre parece ter a mesma cor e os mesmos padrões de movimento. Mas a aparência da água da piscina e controlável, ate a cor pode ser feita pela mão do homem, e seus movimentos refletem não somente o céu, mas, devido à transparência, também a profundidade. Em meu trabalho, se a superfície reflete um sol forte, surgem as linhas de movimento coru as cores do espectro. Sc a piscina não foi usada por alguns minutos e não há brisa, ocorre uma simples gradação de cor que acompanha a inclinação do piso.
 
Nos quadros de piscinas pintados nos anos 60, a exemplo de toda a sua obra, Hockney adotou várias soluções formais. Picture of a Hollywood Swimming Pool estiliza todo o conjunto, a piscina – e suas águas –, a escada, as plantas. Já Two Boys in a Pool, Hollywood também se vale da estilização, mas os personagens masculinos silo retratados de modo mais tradicional. Sunbather divide as atenções entre o banhista, no plano superior, em representação quase realista, e as águas da piscina, no plano inferior, em representação simbólica.
 
 
 

Sunbather 1966 - Foto/Reprodução

 

 

Portrait of Nick Wilder, do mesmo período, focaliza um banhista na piscina, com a casa ao fundo, de modo quase convencional – as águas, em suave ondulação, são representadas por áreas de cor.
 
 
Portrait of Nick Wilder 1966 - Foto/Reprodução
 
 

 

A Bigger Splash, pintado em 1967, e provavelmente o quadro mais famoso da série. Hockney compõe o cenário de construção de piscinas, e The Splash, quadro de maiores dimensões. O semidocumentário sobre o artista feito nos a nos 60 por Jack Hazan ganhou o nome do trabalho: A Bigger Splash.
 
 
 
A Bigger Splash 1967 - Foto/Reprodução
 
 

 

Sempre a procura de novas soluções. o artista quase chegou abstração em quadros como Four Different Kinds of Water, que destaca quatro ângulos de uma piscina – a boia, a toalha, a escada etc. –, e, principalmente. Rubber Ring Floating in a Swimming Pool. Hockney divide a superfície do quadro entre a água azul c o piso marmorizado. e coloca uma boia de borracha vermelha flutuando. Rubber Ring teve por base uma fotografia e, sem deixar de evocar a cultura da piscina, e um rigoroso exercício de forma, jogando com o contraste que se estabelece entre o círculo, a boia, e as linhas retas, o limite entre o piso de pedra e a água da piscina.
 
 
Rubber Ring Floating in a Swimming Pool 1971 - Foto/Reprodução
 

 
Artista sério e prolifero, Hockney não parou no tema das piscinas e dos banhistas. E verdade que, admirador confesso da alegria de viver que caracteriza a Califórnia, mudou-se para Los Angeles. E o que não tinha, fazendo cenários para óperas etc. Na Bienal de São Paulo de 1989. por exemplo, compareceu com faxes, que considerava um “aspecto da alta tecnologia que restitui a intimidade”. Mas a fama de artista das piscinas ficou. Em 1987. ele foi chamado para decorar a piscina, justamente a piscina, do Clarion Hotel Hollywood Roosevelt. tradicional endereço de Los Angeles no qual se realizou, em 1929, a primeira festa do Oscar.
 
Hoje com 81 anos, David Hockney e uma referência do movimento pop e tem quadros nos mais importantes museus de arte contemporânea do mundo.
 
por Federico Mengozzi
 
 
 

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